Matilde Alves de Amorim

 
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Matilde prezava pela própria independência, de fazer tudo no seu ritmo e à sua maneira. Foi assim até os seus últimos dias, morando na própria casa e determinada a conduzir a sua caminhada mesmo quando os passos já não eram tão firmes ou certos como outrora.

Trazia essa determinação de longa data. Na infância foi à roça em Petrolina, no Piauí, trabalhando na terra, carregando latas de água na cabeça para os pais e cinco irmãos e lavando roupa no quintal. Depois de deixar o Nordeste para trás para sempre trabalhou um pouco como doméstica em São Paulo logo antes de encontrar e de casar com Noé, seu primo.

Como era do seu feitio e natureza, seguiu na labuta, agora cuidando da casa e lavando, passando e costurando para fora. Eram suas criações que vestiam os cinco filhos: Adalvo, Dilma, Maria Dilza, Dirce e Darci. Foi uma mãe rígida e dura, como era costume na época e ainda mais que o marido. Controlava as idas à escola e as companhias, mas também tentava com o pouco que tinha dar sempre o melhor para as suas crianças, apesar de não ter cursado nem o primário - ou justamente por isso.

Matilde não gostava de muita conversa e era avessa a ambientes muito sociais. A exceção era a missa de domingo, uma rara justificativa para sair de casa. Adorava fazer parte da Pastoral da Paróquia São Camilo de Lellis, na Vila Gustavo. Ainda assim com seu jeito reservado característico. 

Sua inclinação meio “sargentona” garantiu que cuidaria dos filhos como se fossem crianças ou adolescentes até quando alguns deles já eram avôs. Teve oito netos e dois bisnetos, mas não foi a avô arquetípica, dos mimos e agrados. O seu passatempo era cuidar do lar, do seu reino. E, mais jovem, fazer roupas e arremates em sua máquina de costura.

Nunca voltaria ao Nordeste, apesar do desejo de visitar sua terra novamente. Foi deixando o tempo passar e depois já não conseguia viajar por medo do avião. Um dia, já fragilizada pelo Alzheimer há sete anos, segurou a colher de um jeito diferente na hora de comer. Momentos depois, teve um AVC depois de deitar. Quem esteve perto dela bem soube que atrás do jeito sério e fechado de Matilde sempre transbordou o amor.

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