Marilda José Daur Lima
Marilda viveu para as filhas Daniely e Michely. Por elas acordava cedo e se desdobrava como professora, acumulando os turnos da manhã e da tarde na escola. Toda a preocupação e a motivação, todo o dinheiro e suor tinham nas meninas a razão de ser. E quando estavam já adultas, chegou a vez dos netos.
Ainda em Miguelópolis, interior de São Paulo, a caçula de cinco recebeu também o nome de um dos irmãos mais velhos, falecido ainda criança. Eram tempos simples, da casinha na roça e sem luz. O pai, Jacob, batalhava duro desde a vinda como refugiado do Líbano apenas com a roupa do corpo, fugindo do conflito árabe-israelense. Aqui casou com sua mãe, Linda, viúva.
Marilda viveu lá até conhecer Mario, mineiro e estudante da Escola Agrícola da cidade. Depois do casamento rumaram ambos para São Paulo, buscando o futuro. Ela nunca deixou a pequena cidade totalmente para trás, porém. Única entre os filhos a partir para a cidade grande, retornava sempre para estar com os pais e a família. A saudade de casa apertava especialmente durante as longas viagens a trabalho do marido.
Com a chegada das filhas, Daniely e Michely, a vida ganhou um colorido diferente, e uma direção certeira. Marilda dava aulas em uma escola particular e depois de um concurso tornou-se professora de primário da escola pública para onde dedicou seus dias e horas. Mario empregou-se na Ceagesp.
De tanto amor, Marilda às vezes se convertia em alguém preocupada ou mesmo ansiosa e brava, reflexos do seu gênio forte. Apesar disso, ou talvez por conta dessa característica, era querida pelo seu entorno e sempre teve muitos amigos. Para eles e para a família cozinhava muito e bem. A especialidade era a culinária libanesa herdada da mãe: farta, famosa e inesquecível entre quem provou, difícil de replicar.
Marilda amava o mar. A casa em Praia Grande e depois em Bertioga, eram refúgio de calmaria para os dias. Fora feliz também no seu lar, que abrigava agora as filhas e também os seis netos. Seu sonho em vida fora conhecê-los e estar com eles, além de deixar suas meninas encaminhadas e bem amparadas. Realizou ambos.
A diabetes tirou de si parte da visão e antecipou a aposentadoria na escola. Foi difícil para ela apartar-se daquele trabalho, precisou lidar com a falta em seus dias. Partiu anos depois em casa, vítima de um infarto fulminante, mas os belos ecos de sua presença são sentidos até hoje.