Manoel Rocha Soares

 
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Nos últimos tempos e com o Alzheimer nublando e aproximando certas memórias antigas, Manoel passou a ser transportado mais e mais para para um momento definidor da sua infância. Adélia, sua mãe, subia na carroça em Balsas, no Maranhão, para ir ao hospital, a última vez em que ele a viu. Chorava muito com essa memória e com uma segunda, uma década depois, quando despediu-se do pai para fazer a vida em São Paulo.

Entre uma cena e outra ajudou Raimundo vendendo produtos de porta em porta. O pai o levava a tiracolo porque o garoto era inteligente e sabia matemática, fazia as contas dos pedidos rapidamente. Eventualmente alguém se compadecia da situação deles e oferencia uma refeição. Manoel guardou com orgulho as reminescências daquele tempo, inspirado por aquela figura paterna tão dedicada ao trabalho.

Em São Paulo arregaçou também as mangas. Trabalhou na rua como engraxate, comendo o que lhe davam. Pouco depois, empregado em uma empresa leiteira, comprava dois pães por dia e os comia com o litro da bebida recebido como parte do pagamento. Morava em uma pensão com outros cinco homens à época e também carregou tecidos para as lojas da 25 de Março.

Conseguiu terminar seus estudos com uma bolsa e passou a tentar concursos públicos até passar para o antigo Banespa e a partir dali ter uma vida profissional mais garantida. Casou-se e teve três filhos, mas foi no segundo casamento que encontrou o amor em Marlene. Tinham amigos em comum e depois do primeiro encontro, na porta da empresa de turismo onde ela trabalhava, não se separaram mais.

Eram mesmo grudados na paixão e nos gostos. Viajavam muito para Poços de Caldas e Lambari, em Minas Gerais, e também iam para Vinhedo. Ela era viúva e tinha dois filhos, de quem Manoel não chegou a se aproximar muito. Mas tudo mudou com a chegada dos netos e bisnetos. Foram 3 netos do segundo casamento e mais duas do primeiro, e depois três bisnetas do segundo casamento e um do primeiro. Eram a sua alegria.

Manoel tentou ser justo e de maneira honesta ajudar a todos. Legado do pai, era trabalhador e até se irritava com a preguiça alheia. Acreditava muito em Deus e nos ensinamentos cristãos, e reservava 10% dos seus ganhos para o dízimo independente de qualquer coisa. 

Antes da doença era também notável seu amor pela pesca. Chegava a passar um mês e meio no Rio Araguaia, no Mato Grosso, lançando sua linha em meio à paz da natureza. Tinha até um rancho simples em Paranapanema, interior de São Paulo, para pescar no meio do mato, onde gostava de estar.

O Alzheimer o deixou mais carinhoso, nos últimos tempos era só beijos e abraços. Ficou internado às vésperas do seu aniversário de 90 anos, o quadro complicado após uma queda meses antes e com o agravamento da doença. Sem forças, partiu cercado pela esposa, pela neta, Renata, e pelo cunhado, Thiago, algumas das suas pessoas mais próximas. Esperara apenas por aquele momento de amor.

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