Ligia Lidia da Costa

 
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Ligia tinha apenas três anos de idade quando suas pequenas mãos passaram a desvendar os meandros do Bordado Madeira típico de sua terra na ilha portuguesa de mesmo nome. Aquele conhecimento carregaria consigo para o outro lado do oceano e seria indissociável da sua trajetória de vida, tanto como fonte de renda quanto como passatempo. 

Perdera a mãe na mesma época e, criada pela madrasta, não conseguiu estudar. Mocinha aos 20 e poucos fez juras de amor a João, morador de uma aldeia próxima, e o esperou por um ano enquanto ele foi para a África e por fim estabeleceu-se no Brasil. O casamento por procuração foi sua senha para a viagem de navio até o novo mundo.

João trabalhava como metalúrgico enquanto ela bordava em casa e ficava conhecida pelos seus trabalhos, vendidos para amigos e conhecidos. Cuidava da casa e também dos quatro filhos: Mariazita, João Carlos, Vera Lúcia, Marco Antonio. Houve ainda uma outra menina, que não sobreviveu aos primeiros meses. Por eles, Ligia trabalhava muito, mas encontrava tempo para ser carinhosa e presente. 

Gostava muito da família, e esse amor ficou ainda maior com a chegada dos netos Andréia, Eduardo, Camila, Ana Paula, Laís e Mariana; dos bisnetos Thayssa, Marcela, Henrique e Gustavo; e da tataraneta, Laura. Com mais tempo para curti-los, foi dessas avós perfeitas. Gostava de buscar na escola, de levar para casa para passar o fim de semana entre mimos.

Seu sotaque nunca se afastou das raízes, mesmo após quase sete décadas por aqui. O falar carregado da Ilha da Madeira, denso em relação à variante continental, muitas vezes só era completamente entendido por seus familiares. Ademais, Ligia era mais calada e observadora, curta e grossa quando necessário.

Entre a arrumação da casa - a cozinha era mais território de João - e seu bordado, os passeios com os netos no parque e os sorvetes de chocolate, foi uma pessoa humilde, sem pretensões além ver seus amores bem e próximos de si.

Idosa, tinha Doença Pulmonar Crônica Obstrutiva, controlada após episódios graves, mas o processo de demência foi paulatino e irreversível. Ao final já não saía mais da cama e após ter seu quadro mais uma vez agravado a família optou por não mais a internar. A morte natural depois de uma vida plena e boa veio tranquila, como aos passarinhos.

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