Lectícia Moraes de Souza

 
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Dona Lectícia sempre fora amiga do silêncio, da quietude dos próprios pensamentos. Mas mesmo através do jeito fechado impunha-se o temperamento forte, que dominava os ambientes. Geniosa e determinada, mas correta, preferia o amor dos atos ao das palavras vazias. E assim, ao longo de nada menos que 99 anos, criou uma numerosa família, orgulhosa da sua descendência até os tataraneto.

A família foi sua vida desde o casamento com Manuel, caminhoneiro morador do mesmo Brás onde vivia e onde se conheceram. Tiveram três filhos homens: José, Dagoberto e Waldir. Lectícia foi uma mãe rígida, preocupada com o futuro e com o encaminhamento deles na vida.

Com os 11 netos, 12 bisnetos e 4 tataranetos foi muito diferente. Mais chegada e afeita a mimos, era das avós capazes de estragar qualquer criança. Fazia tudo por eles. Também demonstrava amor também pela culinária, marcada pelos pratos fortes e pesados, risoto, polenta, feijoada… Era conhecida pelos dotes na cozinha e com eles fazia muitos pratos diferentes.

Lectícia gostava de se distrair com as revistas sobre os artistas da TV, ou ainda assistindo as novelas, jornais e programas de entretenimento. E também ao som da rádio, especialmente quando tocava música sertaneja. As idas para Praia Grande com os netos ou as tardes pegando frutas do pé em Porto Feliz, interior de São Paulo, no sítio da família, eram para si momentos de grande prazer.

Viúva cedo, aos 51, passou a viver com Waldir e com a nora, Penha, e ajudou a criar os filhos deles. O sonho de viver sozinha ficou de lado por um bom motivo. Após 99 anos de saúde firme, foi internada após broncoaspirar a comida. Instável nos meses seguintes, partiu após uma insuficiência respiratória. Lectícia viveu à sua maneira, pouco afeita a concessões, mas plena e feliz.

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