Kaoru Sheike Kodama

 
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Depois que casou, Kaoru nunca mais comeu sentada. Do casamento com o primogênito Minoru vieram nove cunhados mais novos e recém-órfãos de mãe. Coube a ela cuidar de todos enquanto tinha com o marido os seus próprios filhos. Seriam seis no total. Nove anos antes daquela união às antigas, com apresentação seguida de casório, desembarcam do mesmo navio vindo do Japão. Uma vez no Brasil, trabalharam na fazenda Santa Lúcia, em Ipaussu, interior de São Paulo.

Kaoru deixou a cidade de Herime-kem com 16 para acompanhar a irmã, Iseko, e o marido do outro lado do mundo. O ano era 1936 e naquele fim de onda migratória japonesa era pré-requisito que os trabalhadores tivessem ao menos uma criança com mais de 12 anos. Ela passou-se por filha da irmã para poder viajar.

Foi rígida como mãe, ao contrário do esposo, mais maleável e praticamente um avô para as crianças que não conheceram os avós por parte de pai, falecidos um pouco após o outro. Dona de uma personalidade forte e cheia de energia, lavava e passava roupas, costurava, assumia todas as tarefas domésticas e ainda ajudava Minoru na roça. Sua existência era inteiramente dedicada ao trabalho, sem tempo para hobbies. Se Minoru ainda lograva ir ao cinema ver filmes do Mazzaropi, Kaoru ficava na labuta.

A família espalhou-se na mudança da fazenda, conforme os irmãos de Minoru e os filhos dos dois se casavam. Ainda arrendaram um sítio e tiveram uma mercearia antes da mudança para Garulhos, época do falecimento dele após 27 anos casados. Kaoru seguiu vivendo com os filhos primeiro lá e mais recentemente em Belo Horizonte; não mais trabalharia.

Em 1997, aos 77 anos, foi para o Japão com a irmã Iseko. Retornou decepcionada cinco meses depois. Aquele não era mais o país de sua juventude e não tinha mais vontade de pisar lá nem para passear. Seu plano original de emigrar para o Brasil e voltar após dez anos com dinheiro se frustrou. Depois da partida, seis décadas antes, nunca mais veria sua mãe.

Nos últimos tempos, contando 12 netos e nove bisnetos e sentindo o Alzheimer avançar, voltou a lembrar muito de sua mãe. Às vezes se referia à casa ao lado como sendo dela. Partiu com invejáveis 100 anos após complicações de uma queda e o agravamento da saúde. Kaoru finalmente voltou para casa.

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