Juraci Lopes Siqueira
Juraci anunciou à esposa que não trabalharia mais depois de aposentado. E cumpriu aquela promessa, parte para si, parte para ela. Seu escritório mudou-se para o terraço de casa, acompanhado pelas músicas de Nelson Ned, Paulo Sérgio e Zeca Pagodinho e com uma cerveja gelada à mão. Estar assim em seu lar, com a mulher e suas seis filhas era mais do que ele poderia pedir.
Foram afinal 35 anos de labuta como metalúrgico na Maxion, antiga Borlem, em Guarulhos. Aquele foi o seu único emprego, iniciado ainda jovem poucos anos depois de chegar de Buritama com a mãe e seus três irmãos. Nessa época sua pele morena e o corpo forte de trabalhador contrastavam com os primeiros cabelos brancos de um grisalho precoce.
Na Ponte Grande, onde vivia, conheceu Conceição. Tiveram juntos Celia, Claudete, Claudia, Cleide, Cristiane e Daniela. Sua alegria eram as meninas, a esposa e os colegas de trabalho. Ocasionalmente reunia os três, como quando levava sua família para o baile de gala dos funcionários da empresa, todos arrumados.
Foram anos de muito trabalho, mas tentou estar próximo das meninas o quanto pôde. Metalúrgico, suas brincadeiras eram um pouco mais violentas no entanto. As meninas lembram das broncas dele, necessárias para o desenvolvimento delas. E também recordam de momentos preciosos, como quando ele forrava a cama com um cobertor e reunia suas garotas ao redor de um grande ovo de chocolate.
Teve mais cinco netas, Debora, Gabriela, Carolina, Camila, Julia, Leticia; e dois netos, Lucas e Filipi. Juraci gostava de vê-los, pedia para que os filhos os trouxessem. E distraía-se das horas vendo TV. Nos últimos tempos andava bastante interessado pelas partidas de vôlei.
Um dia Cleide interpelou seu pai. Queria saber qual seria o sonho dele, algo talvez no horizonte das possibilidades realizáveis. Ficou sem resposta pois o sonho dele já havia sido realizado no passar dos anos em sua casa com as filhas e depois com os netos. Juraci levou dois anos lutando contra um câncer antes de partir. Realizado.