Altamiro Ferreira
O auge do reconhecimento do talento artístico de Altamiro se deu quando pisou no estúdio do Comando da Madrugada, do apresentador Goulart de Andrade. Acompanhado por um amigo tocou violão e ostentou sua voz, reminscente do grave impostado de Nelson Gonçalves. A música foi uma das suas maiores paixões, tinha os clássicos, canções românticas e sertanejos na ponta dos dedos e ao alcance do belo cantar.
Muito antes disso foi uma criança feliz e de sorte, apesar das circunstâncias. Seus pais separaram-se quando ainda era muito pequeno em São Paulo e sua mãe partiu com sua irmã. Mas na casa da tia Zenaide, em Ferraz de Vasconcelos, encontrou amor e acolhimento. Ela o criou e fazia tudo por ele, e o tio, Coronel Osvaldo, levava Altamiro e o irmão para a escola.
Crescido, passou um tempo em Mogi Mirim com a família, trabalhando em uma fábrica de salgados, antes de voltar para São Paulo. Conseguiu um emprego na fábrica de bolachas Bela Vista e lá encontrou Aisa. Era ajudante e fazia entregas de produtos, mas volta e meia passava na máquina dela para comer biscoito e bater papo. A paquera seguiu nos intervalos de almoço, entre olhares e mãos dadas.
Aisa lembra do curto namoro, de encontros na casa dela e com o pai junto, e “sem esse negócio de beijo”, que foi se materializar só na testa durante o casamento na igreja. Noivaram e casaram em seis meses, os pais dela, do Norte, não gostavam de casórios demorados.
O enlace foi longevo, porém. Contaram 45 anos de uma vida maravilhosa a dois, ele como um pai presente e amoroso para a filha, Thalita. Seguiu trabalhando por mais algum tempo na fábrica antes de empregar-se como porteiro em um edifício comercial até aposentar-se. Aisa precisou deixar o emprego após o casamento, mas seguiu como cozinheira em uma empresa. Altamiro não permitiu que nada faltasse naquela casa e levava a vida com leveza, era difícil não gosta dele e do seu jeito divertido.
As coisas começaram a mudar quando contraiu um câncer na garganta. Curou-se, mas a voz se foi e com ela parte da sua alegria. Altamiro se fechou um pouco, mas não se permitiu reclamar. Quando Thalita apresentou-lhe o namorado, Renan, foi com alegria que o aceitou. Falava com ela por bilhetinhos então e, cansado da rotina de hospitais, já dizia não ter certeza de estar por perto para vê-la casar.
Ao fim, foram as complicações de uma queda no hospital, enquanto se recuperava de uma arritmia, que terminaram por o levar. Altamiro não alcançou o sonho de ter a voz de volta, mas em sua caminhada foi feliz.