Sinomar Ferreira de Souza
De tanto ouvir a mãe, Elisia, chamar o pai, Sinomar, de “bem” as crinças começaram a repetir. Ele virou o “bem” de todos. Dos amigos, das visitas na casa sempre cheia, dos muitos vizinhos de décadas na Vila Guilherme, dos parceiros de pescarias e de histórias, dos companheiros de churrascos, cerveja e piadas. Charuto era outro apelido, mais antigo. E Papaizão seria o útimo, dado pelos netos que o adoravam.
Conheceu a esposa quando ela trabalhava com sua sobrinha Madalena. Cobiçado por outras colegas de trabalho dela, foi Elisia quem chamou para sair. Mas justo ela fugia às suas investidas. Quando não houve mais como fazê-lo engataram o namoro. Sinomar era um sujeito determinado para conseguir o que queria.
Juntos tiveram Ana Lívia, mas o casamento entrou em crise, separaram-se e ele teve Sidney com outra mulher. O amor que os unia era mais forte, porém, e reunidos definitivamente foram pais de Bárbara e depois de Eduardo. Maria, menina que vivia no bairro e viera do interior de Minas Gerais para ajudar a irmã a cuidar dos sobrinhos, foi adotada pelo casal e criada como filha. Hoje, com quatro filhos, considera a família dele como família dela. Sinomar compartilhava o pouco que tinha.
Aprendera ainda na infância, com seus sete irmãos. Plantavam algodão e arroz na roça, em Miguelópolis, quando era época de plantar, colhiam quando era época de colher, nadavam no rio e brincavam no mato no meio tempo. Aos 10 anos de idade já dava duro na plantação. Quando enfim veio para São Paulo trabalhar instalou-se na Vila Guilherme e lá permaneceu, na mesma casa, por cerca de 40 anos. Conhecia o bairro inteiro.
Sempre foi motorista, primeiro na FORD, depois em táxis. Seu forte mesmo eram os caminhões de todos os tipos, mas nos últimos 14 anos passou a manejar também kombis e similares. Elisia cuidava dos filhos.
Sinomar levara a sério o hobbie de pescador, que o levou até para o Mato Grosso. Gostava muito de visitar os pesqueiros do interior de São Paulo, na companhia do sobrinho Adauto e do cunhado Pito.
Sempre pensou mais nos pequenos que em si. Nem seus sonhos mais ousados - uma casa e um negócio para cada um dos filhos - ele era o protagonista. Avô formidável, mereceu a alcunha de Papaizão atribuída pelos netos Pietro, Rafaela, Alice, Maitê, Gabriel e Felipe, um apelido que sobrevive à sua partida.
Descobrira a doença de Chagas em 2011 e desde então fora uma luta frequente, travada com a sua determinação característica. No velório cheio de amigos, vizinhos e conhecidos, disseram que morrera de coração grande. Morrera de tanto amor.