Severina Atalaia de Almeida
Não houve macarrão como o de Severina, isso atestavam seus netos. Seu mocotó, o sarapatel e outras delícias nordestinas sempre reafirmaram a sua ligação com a terra natal. E o bolo nega maluca era simplesmente atacado por quem já conhecia a justificada fama. Não por acaso, ela trabalhou uma parte considerável da vida na cozinha, preparando pratos como esses para quem teve a sorte de comê-los.
A vida não foi especialmente fácil para Severina. Acompanhou pequena a separação dos pais, Maria do Carmo e Arlindo, e com sete anos já trabalhava no bar do padrinho em Igarassu, depois da mudança com a mãe e o irmão de São Lourenço da Mata. Passou fome antes de ficar por cinco anos isolada em um internato de freiras. Adolescente, mudou-se para o Recife. Seria mãe jovem, aos 15, e ainda menina e com três filhos para cuidar tornaria-se viúva.
Nas viagens como cobradora de ônibus para alimentar as crianças conheceu o segundo marido, João. Com o motorista teve outros quatro filhos, mas o relacionamento, assim como o de seus pais, também desaguou em divórcio. À época, alguns dos filhos já viviam em São Paulo e foi para lá que ela rumou.
Amava seus rebentos acima de tudo e fez o que pode para manter a família unida. Ajudou a todos da maneira que conseguiu. De grandes ações a pequenos, mas significativos e inesquecíveis gestos. Como esperar a filha Ivete chegar da faculdade antes de dormir, mesmo precisando estar de pé às 5h.
Na cidade grande brilhou na cozinha de diversos lugares: Casa de Saúde, Ideal Tintas, colégio Stella Maris e por fim na Furp (Fundação para o Remédio Popular), onde aposentou-se ao fim.
Severina também conseguiu aproveitar os momentos tranquilos da vida. Amava a viagens, principalmente à praia, e aproveitava a casa da família em Bertioga, além dos passeios por Maresias e Guarujá. A forte ligação com o mar, herança de seus anos em Pernambuco, traduzia-se também no gosto pelas comidas do oceano, como peixes, camarão e lula.
Teve 17 netos e aguardava ansiosamente a oportunidade de dançar valsa nas formaturas de dois deles, Renan e Tathyane, estudantes de medicina. Bisnetos foram 18. Não houve tempo para a esperada dança e para o último passeio na sua querida Recife. Severina sofria de problemas renais, depois de conviver por quase uma década com uma doença cardíaca. Soube fazer muito com pouco e marcou os seus para sempre.