Nelçon Raimundo da Silva

 
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Uma cedilha insinuou-se sorrateira no nome de Nelçon durante o registro, ainda na pernambucana Jurema. Riu bastante durante a vida desse errinho, sabia não se levar tão a sério. E foi com uma vocação descontraída por excelência — vendedor ambulante de churrasquinho — que conquistou todos os seus sonhos e de quebra sustentou uma família numerosa da qual sentia orgilho.

Trocou a vida dura no Nordeste pela correria de São Paulo já comprometido com Margarida, apesar dos protestos da família dela. Os familiares dele tinham no vilarejo fama de encrenqueiros, e a mãe da então noiva a desencorajava vaticinando o fim precoce daquela relação. Estava errada, depois de estabelecer-se na cidade grande e mandar buscá-la, o casamento deles durou 48 anos.

Os primeiros tempos em empresa ficaram rapidamente para trás. Não gostava de ser empregado e passou a vender churrasquinho à noite. Com o tempo e o sucesso da sua iniciativa demitiu-se. Já tinha dinheiro para investir em terrenos e casas, e em um deles abriu um mercadinho e bar. Passava o dia lá e depois ia para a rua vender seu produto.

Parece insólito, mas Nelçon venceu na cidade assim. Com o dinheiro cuidou da esposa, das cinco filhas, Neli, Noeli, Nelia, Neide, Neci, e de quebra conseguiu comprar carros e até construir um sítio em Mairiporã. Soube ser um pai acolhedor para as meninas, e no amor, na felicidade e também nas divergências com a esposa ensinou para elas o que era um casamento, o compartilhamento da vida com alguém completamente diferente.

Sua relação com o churrasco não era meramente profissional, era paixão de verdade. “Vamos assar uma carne?” ouviam os familiares com frequência. Tudo era motivo para reuni-los e sua especialidade era a melhor desculpa.

Nelçon era amigo da liberdade. Fosse para fugir de casa para bater perna no Brás, na 25 de Março ou em Guarulhos, fosse para vender um carro ou uma casa e ir passar um tempo no Nordeste como fez duas ou três vezes. Sabia que quando o dinheiro acabasse o trabalho estaria lhe esperando novamente em São Paulo.

Ativo, cuidou do seu sítio até eventualmente se mudar para Mairiporã de vez, aposentado após três décadas vendendo churrasquinho. Estava realizado com o que conquistara em vida. Uma família unida, nove netos e um bisneto, estabilidade, amor. Então problemas de saúde somaram-se ao Alzheimer e Nelçon partiu após uma pneumonia e paradas respiratórias. Foi sabendo-se um vencedor.

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