Maria Graciete Marinho Maldonado

 
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Aos 30 Maria Graciete acordou no meio de uma epifania. Era insustentável seguir cuidando da casa e tendo filhos, piorando a já difícil situação financeira da família. Sem abandonar suas crianças, que há um par de anos já somavam 10, empregou-se em um restaurante, limpando e ajudando com a louça. Mesmo sem registro e muitas vezes chegando em casa com o jantar só depois das 23h, ganhava ali uma independência que faria questão de preservar.

Antes do restaurante já lavava roupas para fora, depois foram as faxinas nas casas das pessoas. Superou os ciúmes do marido, ajudou as crianças a lidarem com a ausência depois de tão acostumadas à presença. Cerca de uma década depois aprenderia a ler no antigo MOBRAL. Aquela foi uma das maiores conquistas da sua vida, a realização de um sonho - nunca mais precisaria assinar documentos com o dedo.

Culminava ali uma transformação completa para a jovem analfabeta de 13 anos, órfã de mãe e já casada em Maceió com um homem de cerca de 30, divorciado e pai de dois filhos. Foram anos, seis crianças, a rotina desconfortável do trabalho de José Fernandes, viajando às vezes por semanas pela companhia elétrica onde trabalhava.

A mudança para São Paulo foi inevitável, era necessário ganhar a vida. Na casinha comprada com o trabalho duro do marido, Maria teve outros quatro filhos. José encontrou serviço em uma empresa de utensílios de vidro, e décadas depois aposentou-se por lá.  O casal ainda adotaria mais um menino depois que as crianças já estavam crescidas.

Maria era das mulheres que apreciam o melhor, de comida a moradia ou roupas. Gostava de passear, de sair e comer fora, nunca dependeria de ninguém, mesmo com a chegada da idade. O temperamento extrovertido facilitava as amizades - gostava de festas, de estar com gente.

Enfrentou e venceu um câncer de mama quando os filhos eram pequenos. A remoção do seio foi difícil emocionalmente, mas nunca desistiu de reconstruí-lo. Resistiu sem apoio de ninguém e anos depois realizou o seu sonho. Sentiu como se renascera como mulher, a doença nunca mais voltou.

O jeito forte com o tempo foi cedendo ao peso da vida, sem se entregar contudo. Maria Graciete teve 20 netos e 15 bisnetos, era batalhadora, não queria partir. Sobreviveu ao mal de Parkinson, ao Alzheimer, a um AVC e a paradas cardiorrespiratórias. Foi levada por essas complicações, mas vitoriosa.

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