Maria de Lourdes Santos

 
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Maria e o marido Miguel fizeram um périplo por oito cidades enquanto trabalhavam e formavam sua família.

No caminho, ela foi tornando-se pouco a pouco a matriarca, papel reservado a si pelo destino e pela personalidade. Cuidaria dos seus e os protegeria até o fim da vida.

Em Igarapava, interior de São Paulo, trabalhava na roça com 14 irmãos. Foram tempos sofridos, ajudando os pais, Domingos e Rosa, a quem sempre chamou de Papai e Mamãe. A chegada de Miguel, e o casamento os 18, transformou tudo isso para sempre.

Começaram a trajetória de mudanças em Canápolis, também no interior, onde nasceu Irani, primeira dos quatro futuros filhos. Passariam ainda por Delta e Uberaba, em Minas. Lá teriam Nilva. O retorno a Igarapava marcou o trabalho de ambos na Usina Junqueira, de processamento de cana de açúcar. No vilarejo dos operários da fábrica havia casas, comércio, escola… e uma vidinha que deixou boas lembranças.

Maria costurava para fora. Suas mãos criaram, entre outras coisas, máscaras de descanso para a Varig. Também lavava os macacões dos funcionários da usina para espanto e admiração de muita gente. Vinham muito sujos e precisando de força para esfregar. Um trabalho "para homem" que ela fazia com primor.

Uma parada em Lagoa Seca da Fronteira, interior de Minas, antecedeu os tempos em Itapecerica da Serra e a chegada do terceiro filho, Sebastião Marcos. Houve uma última passagem por Minas Gerais antes da mudança para o bairro da Penha, na capital de São Paulo. O caçula, Luciano André, nasceria lá, destinatário vitalício de todos os mimos de Maria. Foi uma mãe preocupada e cuidadosa, mesmo frente à rotina pesada de trabalho. Dava conta por eles.

Seu lugar favorito, porém, foi o bairro Cecap, em Guarulhos, a parada derradeira da família. Foram alguns dos primeiros moradores de lá, desde 1978. Aquele foi seu lugar de paixão e onde viveram todos alguns dos melhores momentos das suas vidas, reunidos para os almoços deliciosos preparados por Maria: uma carne de panela impossível de copiar, purê de mandioquinha, virado de abobrinha e outras invenções de sua mente criativa.

A família lembra saudosa dos domingos à tarde, dia do café da vó e do bolo de chocolate sem igual. Porque agora Maria já tinha netos. Foram cinco: Rodrigo; Gisele, a "Zelinha"; Miguel; Rafael e Gabriel. E uma bisneta, Maria Eduarda.

O nascimento de Gisele marcou um momento difícil para a família. Maria segurou sozinha a barra da depressão de Nilva, mãe da menina; as questões do seu mais velho, Sebastião Marcos, com o alcoolismo; e a perda parcial da visão do marido. Foi o pilar que a família precisava naquele momento.

Para os netos foi uma avó diferente, que não se furtava a impor limites e até a dar broncas. Trocava o descompromissado "sua mãe não deixa" pelo mais ativo "não pode" sem pensar duas vezes. E praticamente aguardou o nascimento da última criança, o pequeno Gabriel, antes de passar a sentir a saúde dar seus primeiros sinais de fragilidade.

Resistiu a um câncer por dois anos e meio, mas por fim o tratamento tornou-se difícil de suportar. No intervalo que pediu para si a doença a levou. Quem fica tem motivos de sobra para a saudade e gratidão que carregam no peito, Maria os mereceu.

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