Joana Telles Bargas

 
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Joana estava prestes a completar 99 anos quando partiu. Sempre ouvira, a saúde inabalável só não resistiria ao tempo, morreria de velhice e assim foi. A família, como se costume, preparava-se para mais uma festa para honrar a matriarca. Era assim todo ano, era assim porque ela mereceu. A saudade de todos era apenas reflexo da falta daquela mãe e avó presente, sempre pronta a ajudar.

Dizem que é mais fácil amar quando se foi amado. Nós últimos tempos, através da névoa a nublar suas memórias, lembrava com frequência do sítio onde crescera feliz, em Itapui, interior de São Paulo. Foi uma infância de trabalho da roça, porém repleta de cuidados e de carinho dos pais.

Lembrava das paqueras na pequena cidade durante a adolescência. Mulheres para um lado, homens para o outro na pracinha da cidade, como era costume naqueles tempos. Conheceu Francisco lá, o futuro marido era agricultor como ela. Foram seis os filhos do casal. Dedicada à sua família, Joana trabalhava, cuidava das crianças e lavava roupa para fora.

Aos 46 deixou a cidadezinha com os filhos e com o marido. Buscavam uma vida melhor na capital, onde ele encontrou serviço como sapateiro. A vida com Francisco não fora exatamente fácil para Joana. Dono de um temperamento difícil, nem sempre era tranquilo de conviver. Ela dizia para quem perguntava que vivia com ele porque dele gostava, era feliz à sua maneira e cuidou do seu amor até os limites do Alzheimer dele.

Aos 55 precisou voltar a trabalhar, prestando pequenos serviços para uma tecelagem. O jeito esperto e ativo com o qual se conduzia na vida a levaram em até a aposentadoria, aos 70. Filhos e netos reconhecem o esforço, ela nunca deixara faltar nada mesmo em épocas difíceis. No Natal, acordavam com um presente ao lado da cama, mesmo se fosse algo simples. Tinham razão para considerá-la "maravilhosa em tudo", companheira e amorosa como só.

Quando as condições permitiram, divertiu-se em viagens curtas pelo interior do estado: Garça, Monte Sião, Aparecida no Norte… Até o sonho de assistir à virada do século na praia logrou realizar, na Praia do Forte, em Praia Grande. São Vicente era outro destino praiano comum, onde visitava uma irmã. Em casa a distração era a costura. Tinha uma máquina antiga, mas também usava as mãos para fazer as próprias roupas, com o capricho de outros tempos.

Aos 91 uma queda tirou-lhe a capacidade de andar e parte da independência. Mas Joana seguiu feliz, amada pelos filhos, e pelos 12 netos e 10 bisnetos. Os esquecimentos, nada mais que a consequência da passagem inexorável do tempo. Só a velhice seria enfim capaz de apartá-la dessa vida. Mas não sem deixar tantos órfãos do seu amor.

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