Gileno Passos
Gileno dizia que nunca se casaria na igreja e levou exatos 20 anos para mudar de ideia sobre isso. A união com Mariza, formalizada no cartório após oito anos de namoro e a gravidez do único filho, estabelecera-se na resistência contra quem desaprovava o relacionamento entre os primos de primeiro grau. E amadurecera muito nesse meio tempo. E ele já lutava há oito anos contra um câncer, com ela ao lado.
André, fruto dessa paixão, foi a maior alegria e o maior amor de ambos. E recebeu deles a educação que não tiveram e carinho. Mariza precisou domar, com a ajuda gentil do tempo, seu ciúme de Gileno. “Ele me conquistou pelos olhos azuis”, lembra ela.
Olhar carregado por ele desde a infância difícil trabalhando na roça na zona rural de Carira, interior de Sergipe. Depois da mudança para a cidade, onde já vivia sua extensa família, vendia fichas da mesa de bilhar do bar e pensão do tio Gecilo. Com os trocados comprava coisas para si e ajudava os pais. A companhia dos 10 irmão manteve-se constante, viviam sempre juntos.
Assim foi também na mudança de Gileno para São Paulo, aos 17, quando lavou carros e trabalhou na Monarck com os irmãos Denival, Ademir e José. Viviam todos juntos, acompanhados por Antônio. Gileno foi vendedor nas lojas Mapping e trabalhou no extinto INAMPS como gráfico.
Depois do casamento no cartório com Mariza enfrentou o desemprego pela primeira vez. Ela, que já havia trabalhado como demonstradora freelancer para a Swift e Nestlé arranjou para ele bicos como promotor de vendas. E o amigo Roberto Pinto indicou-o para a Elma Chips. “Se não for bom vendedor ele vai ver!”, disse em tom de brincadeira. Gileno ficou por 30 anos lá.
Foi mestre de capoeira e teve até uma academia para a prática chamada Guerreiros da Ilha, aberta com o cunhado Antônio. Sua relação com o esporte acompanhou a idade: foi boleiro, capoeirista, e terminou jogador de carteado e de dominó. Torcia para o Real Madrid desde sempre e não perdia as corridas de Fórmula 1 aos domingos. Deixava de ir à igreja com a esposa para assistir futebol ou automobilismo.
E cantava na vida, em família, no trabalho, na igreja… O jeito tirador de sarro, de botar apelido em todo mundo, tinha um lado doce e outro mais bravo. Se alguém precisava de ajuda quem pedia a ele era a esposa, muitas vezes a resposta era não “porque não merece”.
Em 2009 descobriu o câncer e lutou bravamente contra ele por 11 anos. A família teve nesse tempo a ajuda do médico Marcelo Bendehack, “um pai, um amigo, um irmão, que fez o que pôde e o que não pôde”, conta Mariza.
Seus sonhos de passar um tempo no Nordeste e visitar Fátima, em Portugal, foram interrompidos com o avanço da doença. Já de cama, chamava o filho e a neta, Lorena Rafaela, a quem amou muito. Mariza não precisou chamar pois ela já estava ao lado, apertando sua mão.