Carlos Sebastião da Silva
Fora vendedor de ferramentas, técnico de enfermagem, metalúrgico, chefe de segurança patrimonial, motorista e funcionário público. Na constante busca por melhores condições para si e para os seus, Carlos não contentava-se em apenas bater cartão, fosse no trabalho ou na vida.
Vivera intensamente desde a infância, perto do mar em Boa Viagem, no Recife, fugindo de casa com primos e amigos para ir à praia ou catar caranguejo no mangue. Perdeu o pai, Manoel Sebastião, ainda pequeno e sua mãe, Maria Helena, partira para batalhar em São Paulo com seus três irmãos. Na casa dos tios paternos Apolônio e Maria, encontrou seu lar. Era a única criança do casal, criado como filho e os tendo como pais.
A família brinca que Maria Helena o buscou apenas quando “estava bom para trabalhar”, aos 14 anos, e à revelia de Apolônio, inconformado com a separação do menino. Em São Paulo, após bicos vendendo ferramentas, estudou e tornou-se Técnico de Enfermagem do Hospital São Paulo.
A vida difícil, com a mãe dando duro como doméstica e os irmãos volta e meia desempregados exigia sacrifícios. Por vezes deixou de almoçar na cantina da unidade para dividir a comida com a família à noite. E após uma forte pneumonia ouviu de um dos médicos que seu pulmão frágil estava por demais exposto ali, seria uma boa ideia mudar de área.
Carlos mudou radicalmente. Tornaria-se metalúrgico em uma São Bernardo recém saída das grandes greves operárias. Engajado no movimento por direitos para os trabalhadores, ficaria amigo até de Lula nesse momento. Mas o desemprego crescente o faria migrar mais uma vez. Ademais, já tinha um filho para alimentar: Jonas, fruto de seu primeiro casamento. O relacionamento, iniciado aos 19, durou seis anos.
Divorciado há quase dois anos conheceria Maria Laura. Ambos trabalhavam no Itaú, ela como funcionária, ele como chefe de segurança da unidade. Na lua de mel, em Boa Viagem, despediu-se inconscientemente de Apolônio - seu pai de criação partiria pouco depois.
O segundo casamento, uma união de 26 anos, trouxe-lhe Gabriel, filho caçula. Foi um pai durão, reflexo da própria criação em Pernambuco. Demonstrava amor mais nas atitudes e nas obrigações de cuidado que em palavras e afetos. Se aproximaria mais dele e de Jonas nos últimos tempos, quando a perspectiva da partida lhe apressou o coração.
Carlos era um leitor ávido e curioso, especialmente interessado em teologia e em hermenêutica. Mas também não dispensava uma reunião com amigos e era tido como alguém que sabia cuidar de uma churrasqueira. Na impossibilidade de retornar à terra natal, sonho seguidamente adiado, curtia o litoral paulista com a família.
Depois da mudança com a família para Itapevi trabalhou como motorista até tornar-se funcionário público. Foram 20 anos de trabalho após um concurso difícil. Manteve-se atuante no sindicato, lutando pelos direitos da categoria, e focado em fazer a diferença por lá. Ficaria até a aposentadoria por invalidez após a descoberta de um câncer. Sua luta durou quase três anos. Carlos partiu, cedo, de uma vida mais que plena.