Antonio Correa Moreira

 
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Um jovem Antonio não aguentou ao ver a madrasta maltratando sua irmã, Emília. Tinha raiva dela desde o falecimento da outra irmã, a caçula, por conta de um sarampo mal tratado. Passou-lhe uma rasteira para assustar, mas ela estava grávida à época e a queda fez com que perdesse o bebê. Ele já vivia em um internato durante a semana desde a separação dos pais - a partir desse dia não voltaria mais à sua casa.

Tempos depois, aos 13, ouviria da escola a sirene de emergência da usina de cana de açúcar de Cachoeira do Itapemirim, acionada após a queda fatal do pai, Carlos, de um dos andaimes. Sentiu na hora tratar-se de algo sério envolvendo o pai e a dor de mais essa perda foi muito maior que a revolta e o ressentimento pelos cinco anos de confinamento no orfanato.

A mãe, Desolina, tirou-o de lá neste momento. Foram os dois e Emília do Espírito Santo para Cachoeira de Macacu, no Estado do Rio. Antonio deixava para trás a infância difícil com a separação dos pais por conta da agressividade que o álcool manifestava em Carlos. Deixava em Cachoeira do Itapemirim também o temperamento indomável de criança, que o levava ainda pequeno a fugir em boleias de caminhão para festas nas cidades vizinhas.

Já adulto voltou a Cachoeira do Itapemirim para rever os tios, mas o serviço na usina estava fraco. Rumou para São Paulo atrás de trabalho e lá encontrou ocupação como prensista em uma empresa de plástico. Encontrou também Ana Maria, vizinha com quem tinha longos papos no muro entre as casas, sob olhares de reprovação de Luiz, pai dela. Um dia Antonio achou por bem continuar a prosa na casa da jovem, mas foi prensado contra a parede por Luiz, perguntando o que queria com sua filha.

A resposta veio rápida, impulsionada pela vergonha que sentira Ana Maria com aquele episódio. Passeavam no centro de Guarulhos quando em frente a um cartório ela lançou "pensei numa coisa maravilhosa, você está com seus documentos aí? Vamos casar que aí o meu pai para de encher o saco. Se der certo deu, se não der vai cada um pro seu lado". Conheciam-se há apenas seis meses e tiveram um casamento simples, só com familiares. Não queriam festa, só paz.

Viveram pouco mais de um ano em Campos, interior do Rio, perto da mãe dele. Mais uma perda se avizinhava: primeira filha nasceu lá, prematura de sete meses, e não resistiu ao clima frio de São Paulo quando ambos decidiram retornar. A tristeza de Antonio só arrefeceu quando chegaram os outros filhos, Antônio Carlos, Cristiane, Ana Cristina, Carlos Alberto e Luiz Roberto.

Seu objetivo de vida tornou-se impedir as crianças de sentir fome e de passar pelas mesmas dificuldades que passara. Foi apegado aos filhos e por eles pegava qualquer serviço, de capinar terreno até catar papelão. Não media esforços, seus rebentos eram tudo. Eventualmente encontrou estabilidade trabalhando para empresas de limpeza no aeroporto de Guarulhos, - foram 11 anos fazendo algo que gostava.

O prazer nesses tempos era chegar em casa tranquilo do trabalho, mexer no celular, falar com os amigos da igreja onde servia com a esposa, ouvir hinos de louvor e assistir vídeos. Calmo e paciente, preocupava-se apenas com a saúde mais frágil de Ana Maria e com a sua prole. "Posso perder tudo, mas meu bem maior são você e os meus filhos", dizia a ela. Passeio para ele era receber o salário e fazer compras no supermercado. De resto, preferia ficar em casa.

Antonio teve a sorte de conhecer e de amar 11 netos, de todas as idades, antes da partida repentina. Tivera um AVC grave e mesmo após a cirurgia e internação não resistiu. Sua história de vida - rara, dolorida, mas também plena e vitoriosa - não será esquecida por eles.

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