Antonio Carlos Olivé
Antonio viveu muitas vidas nos seus 70 anos aqui. Treinou boxe e quis até se profissionalizar; foi carregador em caminhões, dono de lanchonete e de farmácia, figurante em filmes, funcionário de incorporadora e por fim gerente de vendas em uma editora de livros. E isso que decidira não mais estudar depois de concluir o chamado ginásio à época.
Fora uma criança alegre e arteira em uma São Paulo bastante diferente. Morava com o pais, um irmão e três irmãs em uma casa onde hoje fica o viaduto do Paraíso. Jogava futebol no campinho do bairro, e nadava no lago do Ibirapuera, muito antes de ser parte do parque mais icônico da cidade.
A infância idílica em São Paulo levou a uma juventude vaidosa, ciente da própria beleza. Gostava dos ternos sob medida e de trocar de carro todo ano, de estar cercado de amigos e de ser namorador. A paixão pelo boxe só não se tornou profissão nessa época por intervenção do pai.
E foi para trabalhar ao seu lado na fábrica da Brahma de Agudos, onde o pai era diretor, que Antonio se mudou para lá. Não se acostumou à rotina do trabalho pesado carregando caminhões e na volta ganhou dele uma lanchonete chamada “O Tio Patinhas”. Com o negócio malfadado teve uma farmácia, perdida em uma enchente. A incorporadora onde trabalhou depois construiu o loteamento em Guarulhos para onde se mudaria 30 anos depois.
Mas para isso ainda precisaria conhecer Laura, e ela entrou em sua vida literalmente por acidente. Era passageiro no bondinho que atropelou a moça, chegada há pouco também de Agudos, coincidentemente. A socorreu na hora e com ela casou depois. Tiveram dois filhos juntos, a quem criou com carinho, apesar da pouca paciência. Buscava fazer as vontades deles, principalmente quando os levava para passear.
Antonio era movido pela paixão à estrada, pela vontade de conhecer novos lugares. Sempre reservava um tempo para visitar os pontos turísticos nas muitas viagens como gerente de vendas de editora, trabalho no qual enfim se aposentou. Extrovertido, culto e inteligente, era também dono de um coração grande o suficiente para encorajar eventuais aproveitadores.
Já na tranquilidade da aposentadoria, devorava o caderno de esportes do jornal, assistia às corridas do Senna na TV, curtia as lutas de boxe e não perdia um jogo do Santos. Distraía-se com palavras cruzadas, no carteado com os aposentados do bairro e visitando parentes em Agudos. A descoberta e o tratamento bem-sucedido de um câncer permitiu a felicidade de reunir novamente o seu lado da família, afastado então.
Mas três anos depois partiria levado pela reincidência da doença. Antonio foi guerreiro, lutou de todas as formas e tinha vontade de viver. E enquanto por aqui esteve inspirou quem amou a fazer o mesmo.
"...agora aguardam a ressurreição prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo em João 5:28,29"